raízes aéreas


O texto abaixo é do crítico alemão Leo Spitzer (1887-1960), um dos expoentes da velha e boa Romanistik, que terminou sua carreira lecionando nos Estados Unidos. Apesar da sua insistência na profissionalização da crítica literária e na conseqüente submissão a critérios metodológicos, ele era bastante vago quanto a esses critérios, permitindo-se uma grande liberdade de abordagem, e mesmo de comentários secundários no texto, tanto que muitas vezes parece ser apenas mais um diletante. Não sei se ele se impregnou tanto do espírito latino para conseguir dizer “do as do, not as I say”, mas de qualquer forma os seus textos são bem mais agradáveis do que a maior parte da crítica universitária atual, estéril de tão restringida pela metodologia.



Escrito por gongande às 11h12
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Hoje só consigo imaginar o trabalho científico como uma atividade em diversos planos. Claro que não desejaria que o pesquisador parecesse o regente que dirige o Requiem de Berlioz e que deve se voltar para cinco direções diferentes. Mas há pelo menos cinco planos diferentes que se encaixam e se interpenetram, como é o caso em tudo que é vivo. No primeiro plano, ao qual pertence propriamente a especialização científica, o pesquisador deve se esforçar para esclarecer uma parte ainda obscura do domínio do saber; ele deve trazer à luz algo de limitado e de objetivo [sachlich]. Num segundo plano, que ainda está nos limites da ciência, ele procura com seu trabalho enriquecer a prática metodológica: o trabalho objetivo, se não é acompanhado de nenhuma reflexão de método, não possui o fator de movimento, de ultrapassagem, que é próprio da verdadeira ciência.

No plano seguinte, que se poderia definir como filosófico, o pesquisador precisa sua posição pessoal em face da totalidade do mundo: seu trabalho, além da submissão ao objeto, deve assegurar um impulso, ao mesmo tempo lírico e metafísico, a uma necessidade espiritual do homem interior; deve assegurar uma liberação análoga àquela proporcionada pela obra de arte ao artista. Num quarto plano, humano e social, a pesquisa objetiva é um constante encontro dialogado e dialético com um homem determinado, ligado pela pesquisa ou pela amizade: estando a ele dirigido o estudo (Scheler há algum tempo imaginou uma filosofia “sem destinatário”!), cada linha deve testemunhar sua presença, deve invocá-lo e provocá-lo. Enfim, eu queria que o trabalho fosse escrito, por assim dizer, nos limites do Nada, aferrando-se ao saber contra o assalto do Nada, com uma ironia voltada contra si e uma energia defensiva – que ele fosse talvez escrito com a pretensão de escapar do Nada. Só a parte do Nada no interior dum trabalho pode lhe dar o caráter modesto, problematizante, a substração superior que acompanha todo esforço nobre; é preciso aceitar o elemento morto e aniquilador sem o qual o vivo não poderia existir. Pois, se a obra deve sobreviver a seu criador, como uma bala que ricocheteia ou uma faísca que propaga o fogo, e não como um mármore tranqüilo e desprendido, é preciso que ela seja a imagem de uma luta travada por seu criador, transmitindo aos leitores seu imperativo de luta.

A integridade do material científico abarcado é menos importante que a integridade maior da atitude humana: se um dos cinco elementos vem a faltar (amplitude do campo de conhecimentos, justeza do método, liberação metafísica de si por meio da ciência, consagração interior a um destinatário, consciência do Nada), então o trabalho não será “completo”, não será necessário – e para o próprio pesquisador não terá sido satisfatório. O verdadeiro pesquisador partilha da companhia de um objeto, de uma realidade supranatural, de um homem – em face do Nada. E isto quer dizer: não estar só.

 

Leo Spitzer, “Schluβaphorismen“ in Romanische Stil- und Literaturstudien,  traduzido da tradução francesa de Jean Starobinski na introdução de Études de Style.



Escrito por gongande às 17h37
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Die Eifersucht ist eine Leidenschaft,

die mit Eifer sucht, was Leiden schafft.

 

Gosto desse ditado alemão, citado por Freud em “Os chistes e sua relação com o o inconsciente”. Traduz-se como: “O ciúme é uma paixão que com avidez procura o que causa sofrimento”

Eifersucht = ciúme, inveja

Leidenschaft = paixão, ardor, fanatismo

Eifer = avidez, sofreguidão

suchen = procurar, buscar

Leiden = aflição, sofrimento

schaffen = causar, proporcionar

 



Escrito por gongande às 10h02
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Voltando ao Tarô: acho simplesmente deplorável a palavra “tarólogo”. Para mim, um tarólogo seria um estudioso de taras. Por que não usamos a palavra “tarotista”, como em outras línguas, inclusive o castelhano, nossa língua-irmã?



Escrito por gongande às 07h15
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Estranho, né?

Quase vomitei a primeira vez que vi uma foto desse bicho, no artigo sobre o fantástico da Encyclopaedia Universalis. (Eu já era adulto, como seria minha reação quando eu era criança?) Nessa foto específica não dá pra perceber direito, mas é o focinho de um pequeno mamífero. Realmente, vendo uma coisa assim dá pra entender que o fantástico se origina da observação da natureza. Eu olhava a foto e não conseguia entender esse "monstrinho" que parecia ter corais submarinos no focinho, e sentia enjôo. O que ainda é totalmente desconhecido e incompreensível causa repulsa, descobri aquele dia. Trata-se das narinas de um mussaranho (espécie de toupeira, me parece) do nariz estrelado. Acho que ele tem esses tentáculos para tapar as narinas quando escava a terra. No caso, descobriram que ele pode "farejar" na água ao nadar, através dessas bolhas de ar que ele mantém sob as narinas. Se alguém se interessar, a reportagem está em El País:

http://www.elpais.com/articulo/sociedad/Olores/agua/elpepusoc/20061221elpepusoc_3/Tes 



Escrito por gongande às 10h58
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Com relação a blogs e blogueiros, vale a pena lembrar o que Oscar Wilde disse sobre a indústria editorial - um comentário feito na virada do século XIX, mas que vem se tornando mais verdadeiro ainda desde então:

Antigamente os livros eram escritos pelos homens de letras e lidos pelo público. Hoje em dia são escritos pelo público e lidos por ninguém.



Escrito por gongande às 11h55
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Esta é a carta da Lua no tarot Waite. Um cão e um lobo uivando para a Lua, e uma lagosta saindo de um lago (por favor, trata-se de uma alegoria, não exijam verossimilhança). Ela geralmente indica o inconsciente, o reprimido, o desconhecido, o oculto. Eu prefiro interpretá-la relacionando-a com o inconsciente. Ainda vou pendurar uma reprodução na cabeceira da minha cama – o lugar onde o inconsciente aflora mais fácil.



Escrito por gongande às 09h51
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Me desculpe quem não consegue ler em inglês, mas é tão bonito! Acho que é o começo de conto mais bonito que eu já li. Lembro de uma professora minha dizendo que era lugar-comum afirmar que a Clarice Lispector teria se inspirado na Virginia Woolf, mas que ela achava que a Clarice tinha mais a ver com a Katherine Mansfield. Este começo de conto é epifânico como a Clarice gostava.

 

Although Bertha Young was thirty she still had moments like this when she wanted to run instead of walk, to take dancing steps on an off the pavement, to bowl a hoop, to throw something up in the air and catch it again, or to stand still and laugh at – nothing – at nothing, simply.

What can you do if you are thirty and, turning the corner of your own street, you are overcome, suddenly, by a feeling of bliss – absolute bliss! – as though you’d suddenly swallowed a bright piece of that late afternoon sun and it burned in your bosom, sending out a little shower of sparks into every particle, into every finger and toe?...

Oh, is there no way you can express it without being ‘drunk and disorderly’? How idiotic civilization is! Why be given a body if you have to keep it shut up in a case like a rare, rare fiddle?

 

Katherine Mansfield, Bliss



Escrito por gongande às 10h00
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Dinheiro é merda.

Dinheiro é o esterco

com que cultivamos

o jardim do nosso desejo.

 

Segunda versão do poeminha. "O jardim" é mais abstrato do que "as flores", e eu na verdade gosto mais da imagem das flores, do desabrochar. Só que aí me lembrei daquele filme do Almodóvar "A flor de meu desejo", e não quero que ressoe a Almodóvar, e nem a desejo erótico. O desejo de que falo é o desejo num sentido mais geral, o desejo de viver. Como quando, prestes a partir, o Profeta de Khalil Gibran diz que o seu desejo o trará de volta a este mundo, e ele outra vez vai entrar no ventre de uma mulher e nascer.



Escrito por gongande às 22h58
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si tacuisses, philosophus mansisses

Se te calasses, continuarias filósofo

 

Me lembro deste adágio toda vez que escrevo algo de que depois não gosto.

Sim, se uma pessoa se cala, antes mesmo de haver tentado falar, ninguém vai saber o quanto ela ainda não sabe e/ou não organizou suas idéias. Nem ela mesma! Ela não guarda o seu conhecimento, pois neste caso o seu conhecimento ainda nem se constituiu. É na exteriorização do pensamento que a gente o organiza. Se você diz algo e reconhece que não conseguiu se exprimir bem, pois bem, você está no caminho de "construir a sua própria voz". Quem realmente tem algo a dizer deve assumir a humildade de expor o seu desconhecimento, resistindo à tentação da bravata de repetir “só sei que nada sei”, e não se expor, como se fosse modéstia - isso na verdade é a mesma hipocrisia dos carolas que se dizem pecadores, mas nunca perdem a pose de autoridade moral. Acho que só ao se expor (pôr-se para fora, para o mundo - dar a cara a tapa), só assim alguém se torna um verdadeiro caminhante do (auto)conhecimento.



Escrito por gongande às 07h41
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Estes trechos de A Paixão segundo G.H., junto com o do Lobo da Estepe mais abaixo, me impressionaram muito:

 

A gradual deseroização de si mesmo é o verdadeiro trabalho que se labora sob o aparente trabalho, a vida é uma missão secreta. Tão secreta é a verdadeira vida que nem a mim, que morro dela, me pode ser confiada a senha, morro sem saber de quê. E o segredo é tal que, somente se a missão chegar a se cumprir é que, por um relance, percebo que nasci incumbida – toda vida é uma missão secreta.

...

A deseorização é o grande fracasso de uma vida. Nem todos chegam a fracassar porque é tão trabalhoso, é preciso antes subir penosamente até enfim atingir a altura de poder cair – só posso alcançar a despersonalidade da mudez se eu antes tiver construído toda uma voz.

...

E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes... A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida.

...

A desistência é uma revelação.

 

Clarice Lispector



Escrito por gongande às 13h31
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O poeminha abaixo é da minha humilde lavra. Óbvio que tinha em mente a estória de que Freud disse que o inconsciente iguala o dinheiro à merda. Mas também me lembrei da metáfora oriental do lótus, cuja flor imaculada emerge da água suja, e cujas raízes se aprofundam na lama, sustentando-a e alimentando-a.

E dinheiro é uma merda mesmo! Deveria ter apenas o valor de instrumento de troca para nos ajudar a conseguir o que queremos. Isso é tão óbvio (e por essa razão inócuo), que até uma marca de cartão de crédito (!) pode ter a audácia de dizê-lo abertamente em seus comerciais!



Escrito por gongande às 12h59
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Dinheiro é merda.

Dinheiro é o esterco

com que cultivamos

as flores do nosso desejo.



Escrito por gongande às 12h09
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Orides Fontela é minha poeta preferida. Escreveu coisas de uma profundidade abissal, e de um nível altíssimo. O poema a seguir, para mim, é uma definição do que seria nossa "missão" ao viver (com perdão desse cliché de consolação funerárea).

Alta agonia é ser, difícil prova:
entre metamorfoses superar-se
e – essência viva em pureza suprema –
despir os sortilégios, brumas, mitos.

Alta agonia é esta raiz, pureza
de contingência extrema a abeberar-se
nos mares do Ser pleno e, arrebatada,
fazer-se única em seu lúcido fruto.

Alta agonia é ser: essencial
tarefa humana e sobre-humana graça
de renascermos em solidão vera

e em solidão – dor suportada e glória –  
em nossa contingência suportarmos
o peso essencial do amor profundo.

25-10-63



Escrito por gongande às 12h06
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Morrer. Calar-se. O que é que vai morrer em nós? O que é que vai se calar em nós?

O que de nós –  ou depois da gente –  é que vai continuar?

Extraído do “Tratado do Lobo da Estepe”, no romance O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse:

 

No princípio das coisas não há simplicidade nem inocência; tudo o que foi criado, até o que parece mais simples, é já culpável, já complexo, foi lançado ao sujo torvelinho do desenvolvimento e já não pode, não poderá nunca mais, nadar contra a corrente. O caminho para a inocência, para o incriado, para Deus, não se dirige para trás mas sim para diante; não para o lobo ou a criança, mas cada vez mais para a culpa, cada vez mais fundamente dentro da condição humana. Nem mesmo com o suicídio, pobre Lobo da Estepe, te livrarás realmente das dificuldades; tens de percorrer o caminho mais largo, mais penoso e mais difícil da humana encarnação; freqüentemente terás de multiplicar a tua multiplicidade, complicar ainda mais a tua complexidade. Em vez de reduzir o teu mundo, de simplificar a tua alma, terás de recolher cada vez mais mundo, de recolher no futuro o mundo inteiro na tua alma dolorosamente dilatada, para chegar talvez algum dia ao fim, ao descanso. O mesmo caminho foi percorrido por Buda e todos os grandes homens, uns conscientes, outros inconscientemente, na medida em que a fortuna favorecia a sua busca. Nascimento significa desunião do todo, limitação, afastamento de Deus, penosa reencarnação. Volta ao todo, anulação da dolorosa individualidade, chegar a ser Deus, quer dizer: ter dilatado a alma de tal forma que se torne possível voltar a conter novamente o todo.



Escrito por gongande às 11h55
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